Charles Bukowski
Fui até o banheiro, fiz um chumaço de
papel higiênico e tentei estancar o sangramento. Tirei o papel das
minhas costas e dei uma olhada. Estava empapado. Peguei mais papel e
segurei ali por algum tempo. Então peguei o iodo. Passava o remédio nas
costas, tentando alcançar o local do machucado. Era difícil. Finalmente
consegui. De qualquer modo, quem já ouviu falar de costas infeccionadas?
Ou o cara vive ou o cara morre. As costas eram uma coisa que os idiotas
nunca pensavam em amputar.
Caminhei de volta para o quarto e me deitei na cama, puxando a
coberta até o pescoço. Fiquei olhando para o teto enquanto falava com
meus botões.
Tudo bem, Deus, digamos que Você esteja mesmo aí. Foi você que me
colocou nesta. Você queria me testar. E que tal se eu O testasse? E que
tal se eu dissesse que você não está aí? Você já me expôs ao teste
supremo me dando esses pais e estas espinhas. Acho que passei no Seu
teste. Sou mais durão do que Você. Se Você tivesse coragem de descer
aqui, agora, eu cuspiria na Sua cara, se é que Você tem cara. E Você
caga? O padre nunca respondeu a essa questão. Ele nos disse para não
duvidarmos. Duvidar do quê? Acho que você já passou dos limites comigo,
por isso, desafio-O a descer até aqui para que eu possa aplicar meu
teste em Você!
Esperei. Nada. Esperei por Deus. Esperei infinitamente. Acho que peguei no sono.
Nunca dormia de costas. Mas quando acordei estava nessa posição e
fiquei surpreso. Minhas pernas estavam dobradas e meus joelhos erguidos,
dando às cobertas um aspecto de montanha. E quando olhei para essa
montanha de cobertor, vi dois olhos me encarando. Eram olhos sombrios,
negros, vazios… olhando para mim, encobertos por um capuz, um capuz
negro e pontudo, como os usados pela Ku-Klux-Klan. Miravam-me fixamente,
aqueles olhos negros e vazios, e não havia nada que eu pudesse fazer.
Eu estava realmente apavorado. É Deus, pensei, mas Deus não podia ter
aquela aparência.
Eu não podia parar de olhar. Não conseguia me mover. Aquilo
simplesmente ficou me olhando a partir do monte que meus joelhos
formavam no cobertor. Eu queria sair dali. Queria que aquilo
desaparecesse. Seu aspecto era ameaçador e sombrio e eu podia sentir a
sua força.
Pareceu ficar ali parado durante horas, só me encarando.
Então, se foi…
Fiquei sentado pensando no que tinha acontecido.
Não conseguia acreditar que aquilo pudesse ser Deus. Vestido daquela maneira.
Devia ser um truque vagabundo. Havia sido uma ilusão, obviamente.
Fiquei pensando no assunto por uns dez ou quinze minutos, então me
ergui e fui pegar a pequena caixa marrom que minha avó me dera muitos
anos atrás. Dentro dela havia pequenos rolos de papel com citações da
Bíblia. Cada pequeno rolo ficava dentre de um compartimento próprio. Era
esperado que o sujeito fizesse uma pergunta e então puxasse um dos
rolinhos que supostamente conteria a resposta desejada àquela questão.
Eu já tinha tentado utilizar a caixinha anteriormente, e não me tinha
sido de nenhuma utilidade. Agora, tentei novamente. Perguntei à caixa
marrom:
- Qual o significado do que aconteceu? O que eram aqueles olhos?
Puxei um dos papeizinhos e o desenrolei. Era muito pequeno e difícil de manusear. Ao conseguir desenrolá-lo, li:
DEUS O ABANDONOU.
Enrolei o papelzinho e o pus de volta em seu compartimento na caixa
marrom. Não podia acreditar naquilo. Voltei para cama e fiquei pensando.
Era simples demais, cru demais. Não dava para acreditar. Pensei em me
masturbar para voltar à realidade. Continuava sem poder acreditar.
Fiquei de pé e comecei a desenrolar todos os papeizinhos da caixa
marrom. Procurava por aquele que dizia DEUS O ABANDONOU. Desenrolei
todos. Nenhum deles trazia aquela mensagem. Li um por um e nenhum dizia
aquilo. Enrolei todos novamente e os coloquei em seus compartimentos
dentro da pequena caixa marrom.
Trecho da obra Misto Quente
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