quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Resposta de Jó

Havendo certo dia os anjos apresentado-se diante do Senhor, e dentre eles Satanás, dirigiu-lhe Javé a palavra, fazendo-o notar seu servo Jó, homem íntegro, afastado do mal e incapaz de blasfemar. “Porventura Jó teme debalde a Deus?”, indaga Satanás, considerando que, cercado de bens como vivia, seria mesmo de se esperar que o abastado Jó nunca protestasse. Bastaria que Javé lhe tirasse a família, o conforto, a saúde, e o fiel logo estaria cuspindo em Sua cara. “Pois bem, responde-lhe o Senhor, tudo o que ele tem está em teu poder; somente não estendas tua mão sobre ele próprio”. E Satanás dali se foi (Jo 1,12), autorizado que estava a desgraçar o pobre homem.


Deus e o diabo, que pede autorização para atacar a Jó

Jó respondeu então nestes termos: “Até quando afligireis a minha alma e me atormentareis com vossos discursos? Eis que já por dez vezes me ultrajastes, e não vos envergonhais de me insultar. Mesmo que eu tivesse verdadeiramente pecado, minha culpa só diria respeito a mim mesmo. Se vos quiserdes levantar contra mim, e convencer-me de ignomínia, sabei que foi Deus quem me afligiu e me cercou com suas redes.

Clamo contra a violência, e ninguém me responde; levanto minha voz, e não há quem me faça justiça. Fechou meu caminho para que eu não possa passar, e espalha trevas pelo meu caminho; despojou-me de minha glória, e tirou-me a coroa da cabeça. Demoliu-me por inteiro, e pereço, desenraizou minha esperança como uma árvore, acendeu a sua cólera contra mim, tratou-me como um inimigo. Suas milícias se concentraram, construíram aterros para me assaltarem, acamparam em volta de minha tenda. Meus irmãos foram para longe de mim, meus amigos de mim se afastaram. Meus parentes e meus íntimos desapareceram, os hóspedes de minha casa esqueceram-se de mim. Minhas servas olham-me como um estranho, sou um desconhecido para elas. Chamo meu escravo, ele não responde, preciso suplicar-lhe com a boca. Minha mulher tem horror de meu hálito, sou pesado aos meus próprios filhos. Até as crianças caçoam de mim; quando me levanto, troçam de mim. Meus íntimos me abominam, aqueles que eu amava voltam-se contra mim. Meus ossos estão colados à minha pele, à minha carne, e fujo com a pele de meus dentes.

Os quatro amigos de Jó
Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, que sois meus amigos, pois a mão de Deus me feriu. Por que me perseguis como Deus, e vos mostrais insaciáveis de minha carne?

Oh!, se minhas palavras pudessem ser escritas, consignadas num livro, gravadas por estilete de ferro em chumbo, esculpidas para sempre numa rocha!

Eu o sei: meu vingador está vivo, e aparecerá, finalmente, sobre a terra. Por detrás de minha pele, que envolverá isso, na minha própria carne, verei Deus. Eu mesmo o contemplarei, meus olhos o verão, e não os olhos de outro; meus rins se consomem dentro de mim. Pois, se dizes: Por que o perseguimos, e como encontraremos nele uma razão para condená-lo? Temei o gume da espada, pois a cólera de Deus persegue os maus, e sabereis que há uma justiça."

Livro de Jó, 19

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